A fome que ninguém vê: o declínio nutricional nos nossos alimentos

Há uma pergunta que me persegue há anos, e que faço frequentemente a agricultores, consumidores e colegas de setor: se nunca comemos tanto, como é possível que estejamos tão mal nutridos? A resposta tem nome: fome oculta. Não é a fome da escassez. É a fome silenciosa de quem come o suficiente em calorias, mas não recebe os micronutrientes de que o organismo precisa para funcionar bem. A fome oculta tem como característica ser praticamente assintomática, difícil de detetar até mesmo em exames clínicos, e pode avançar silenciosamente durante anos, comprometendo o metabolismo e originando doença crónica. E está a acontecer aqui, na Europa, com pessoas bem alimentadas à mesa.

O problema começa no solo

Evidências crescentes de vários estudos científicos mostram que muitas frutas, vegetais e grãos cultivados hoje carregam menos proteína, cálcio, fósforo, ferro, riboflavina e vitamina C do que os cultivados décadas atrás. Não estamos a falar de diferenças marginais: o nível de declínio variou dependendo dos nutrientes e do tipo de alimento. Porquê? Nas últimas décadas, a produção agrícola priorizou volume, aparência e resistência ao transporte. Esse foco levou ao desenvolvimento de variedades mais produtivas, porém frequentemente menos densas em micronutrientes essenciais, o que se designa por diluição nutricional: o crescimento acelerado reduz a concentração de nutrientes por porção. A raiz do problema está, literalmente, no solo. Quando o solo é explorado continuamente sem reposição adequada de matéria orgânica, ocorre redução da biodiversidade microbiana, comprometendo a capacidade das plantas de absorver micronutrientes. Mesmo com fertilizantes sintéticos, a reposição costuma focar azoto, fósforo e potássio, deixando lacunas em minerais traço essenciais. Também as alterações climáticas agravam o problema, da deficiência de micronutrientes, uma vez que o aumento da concentração de CO₂ atmosférico tem um efeito negativo nas concentrações de nutrientes nas principais culturas alimentares.

Trabalho com agricultores há mais de vinte anos. E posso dizer-vos: um solo empobrecido não mente. Os índices Brix baixam, a resistência das plantas à doença cai, e os frutos – mesmo bonitos, mesmo calibrados – chegam ao consumidor com menos do que deveriam.

A nossa resposta: nutrição vegetal como prioridade estratégica

Na Nutrifield, esta convicção é o fio condutor de tudo o que fazemos desde 2007. O nosso objetivo é fazer mais com menos – seja a nível ambiental, seja a nível económico para o produtor. Mas há uma terceira dimensão que raramente aparece nos indicadores de rentabilidade agrícola: o valor nutricional do que se produz. É por isso que trabalhamos com laboratórios de análise de solo em Portugal, Holanda e Espanha. É por isso que medimos a percentagem Brix dos frutos. É por isso que apostamos na regeneração do microbioma do solo e na nutrição de precisão, cultura a cultura, campo a campo. Não como tendência, como convicção. Em regiões com deficiências de nutrientes no solo, os fertilizantes com micronutrientes representam uma estratégia sustentável: ao aplicá-los, os agricultores podem aumentar os rendimentos, o teor de micronutrientes nos produtos das colheitas e, em última análise, promover a saúde humana. Isso é o que nos move. Produzir alimentos que nutrem de verdade.

A fome oculta não é inevitável. É o resultado de décadas de escolhas agrícolas orientadas para a quantidade e a forma, em detrimento da qualidade nutricional. Podemos fazer diferente e está na mão de quem trabalha a terra e de quem compra o produto final. Nós escolhemos o caminho da nutrição. Porque acreditamos que o solo dá, o corpo recebe.

Por Luís Marques

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